segunda-feira, 17 de junho de 2013

O DIA QUE OS MORTOS ANDARAM

    A luz era forte e cegava meus olhos , e o cheiro podre agradava-me ao ponto de me fazer lembrar as noites e porre . vômitos e ressacas .
  A noite era densa, intensa nos movimentos com gestos exagerados das multidões, inaptos em seguir seu próprio rumo. Todos eles parecendo cadáveres jogados dentro de um ônibus , sacolejando de um lado pro outro com olhares estáticos .
  Tinha saído do ritual sagrado do vinho manchando minhas folhas brancas de papel , não estava suportando a realidade e minha cabeça estava girando. Idéias , pensamentos , desejos sonhos , compromissos ,responsabilidades e palavras...
Milhões delas. Pedindo um vão pra escapar da minha mente.Brindei ao velho Bukowski segui meu rumo pelas ruas bêbadas. Bêbado .
    A data devia ser 1º de outubro talvez, lembro que era entre o Halloween e o finados .E eu andava pelas ruas e sentia um gosto podre , um cheiro de morte .As pessoas nas ruas continuavam a falar milhões, milhões não, bilhões de palavras que nada significavam.Só que eu ainda olhava paras as pessoas , procurando alguma que tivesse alma . Se até os violões tem,
alguma pessoa tem que ter também ! Meu deus!
   A maioria delas tinha o rosto e pagar contas , fazer o de sempre no trabalho , ligar a tv , fazer o que todo mundo está fazendo , não saber onde ir , não se importar com nada que realmente importa .
E meus pés seguindo o caminhar desajustado e tropego  sem estar bêbado ) me impulsionavam adiante . Foi quando passei por um cadáver andando em minha direção . Sim ela estava morta , pelo menos para mim . Era muito magra como se sua essência tivesse saído toda pela sua vagina no decorrer dos partos de seus 23 filhos .Sua pele seca como o sol do deserto cada um dos seus ossos revelando sua face cadavérica .
  O ranger dos seus ossos eram estridentes , seus pés arrastados deixavam uma trilha de tristeza e dor .
Por alguma razão não consigo me lembrar o que eu estava fazendo naquela noite , nem para onde eu ia , e isso talvez seja um mistério que eu nunca volte a lembrar . Talvez o álcool tenha apagado da minha mente.
Mas o que eu me lembro daquela noite eu não consigo lembrar do meu ponto de vista . Pareço estar seguindo eu mesmo ,me vejo do outro lado da rua e me sigo com o olhar. Meus passos seguem rápidos . me lembro dos meus pés . Passos fortes porém desajeitados .
  Talvez o mais estranho seja lembrar disso como um sonho. Tenho certeza que aconteceu , foi real , concreto .Porém minha mente se lembra de tudo como se fosse um pesadelo insano , uma piada de mau gosto .Talvez lúcifer tenha aberto a porta da Gehenna , talvez Hades tenha ordenado seus barqueiros a esvaziar as regiões decrépitas de seu reino.
  Quem sabe até a Dona Morte tenha desistido de levar essas almas moribundas para o Inferno  e esteja por aí mostrando suas lindas pernas aos pobres mortais .

  ....................................................    Continua